A busca do barro - uma interação de sentidos


Auguste Rodin - A mão de Deus ou A Criação

"A existência humana é, essencialmente e inevitavelmente, uma atividade exteriorizante. No curso dessa exteriorização os homens vertem significação dentro da realidade. Toda sociedade humana é um edifício de significados exteriorizados e objetivados, sempre perseguindo a consecução de uma totalidade significativa. Cada sociedade está comprometida na empresa, nunca acabada, de construir um mundo humanamente significativo. A cosmização implica a identificação desse mundo humanamente significativo com o mundo como tal, o primeiro com base no segundo, refletindo-o bem e bem derivando dele suas estruturas fundamentais."[1]


Leonardo Boff explica que “Ex-peri-ência é a ciência ou o conhecimento (ciência) que o ser humano adquire quando sai de si mesmo (ex) e procura compreender um objeto por todos os lados (peri)” [2]. Com base nisso, podemos dizer que no ato da criação o ser humano ex-peri-menta Deus e tem sua consciência formada pela percepção e compreensão do que lhe é externo, o Criador. Mas isso não se dá como uma gaveta, que armazena de forma indiferente objetos dentro de si, antes o ser humano armazena códigos e informações de forma dialógica, pois foi dessa forma que sua primeira informação sensorial lhe foi fornecida. O Gênesis relata um diálogo de sensações, em que Deus sente o sopro fluir de si, enquanto o ser humano sente seus membros serem vivificados pelo ato divino. Deus permite que o ser humano interaja nesse processo com o resultado de sua ex-peri-ência, gerando ainda novos códigos. Loder nos fala do ser humano encontrando-se com Deus no que lhe é externo ao passo que fortalece o que lhe é interno. A busca externa não é a eliminação de códigos internos, nem tampouco a negação da existência de Deus no nosso interior, mas sim o reconhecimento de Deus como o “totalmente outro”. Deus nos ensina , no relato da criação, que mesmo estando em nós transcende nossa existência, o que faz com que o indivíduo passe a desejar, com anseio, o momento do milagre da revelação. Toda busca espiritual deve pautar-se no equilíbrio entre o interior e o exterior. Se tomarmos por base apenas as experiências internas, correremos o risco de confundirmos revelação com projeção. Colocaremos, assim, muito da nossa imagem em Deus, moldando ao invés de sermos moldados. Em contra partida, se buscarmos firmar nossa espiritualidade apenas no que nos é externo anulamos o fator relacional. Deus está em nós sem confundir-se conosco. É buscado no nosso interior ao passo que também se revela fora de nós. É o barro buscando significação nas mãos do escultor.

[1] BERGER, Peter L. El dossel sagrado: para uma teoria sociológica de la religión. Barcelona: Kairós,
1999.
[2] BOFF, Leonardo. Experimentar Deus: A Transparência de Todas as Coisas. Campinas: Ed. Verus. 2002, p.42

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