Experiência Religiosa


Michelangelo Buonarroti - Estudo para a criação de Adão

Elohîms diz “Nós faremos Adam – o Terroso – à nossa réplica, segundo nossa semelhança. Eles sujeitarão o peixe do mar, o volátil dos céus, o animal, toda terra, todo réptil que rasteja sobre a terra.

Elohîms cria o terroso a sua réplica, à replica de Elohîms, ele o cria, macho e fêmea ele os cria.

Gênesis 1:26, 27

IHVH Elohîms forma o terroso – Adam, do pó do terreno – Adama. Ele insufla em suas narinas um hálito de vida: e é o terroso , um ser vivente.

Gênesis2:7 [1]

A capela é um mosaico de imagens, textos, sensações e experiências. Após inundar minha retina com as imagens deixadas na capela pelos viajantes, li a narrativa de Gênesis sobre a criação do ser humano e não resisti ao desejo de perguntar a mim mesmo: O que vejo?

Ao responder vi a trindade, em sua beleza e conformidade, dentro de uma mutualidade extraordinária, olhando o pó da terra, a terra úmida pelo orvalho, e vendo além do que é óbvio. Como Miquelângelo, que dizia ver as estátuas que esculpia como se já habitassem o interior do bloco de mármore, de forma que não as criava, mas apenas tirava o mármore do redor das figuras que ali estavam, Elohîms faz uma estátua do pó da terra. Da fragilidade de um elemento volátil, carregado por qualquer vento, Deus faz o ser humano. Mas não o faz como um mágico, que num “abracadabra” faz surgir uma pomba ou uma lebre. Antes, Ele modela. Não se pode precisar quanto tempo Deus dedicou-se à prazerosa tarefa de modelar o ser humano. Mas uma coisa é certa: Deus se dedica à organicidade daquele evento.

Deus envolve seu ser criativo no ato da modelagem do terroso. A palavra yatsar significa literalmente moldar. É a mesma expressão usada em Is. 29:16 e Jer. 18:4 para designar o trabalho do oleiro ao modelar o barro. Isso nos faz crer que Deus comunicou [2] ao oleiro, ao escultor e ao artista algo que é nato ao Deus criativo. Essa comunicação vai além do ato de moldar. Vemos isso pela análise de vocabulário. Deus poderia usar a expressão bara’ que literalmente significa criar do nada. Assim Deus teria feito o ser humano da mesma forma que inicia sua criação, sem precisar de um material pré-existente. Diferente das demais palavras usadas, como a palavra yatsar e ’asah, a palavra bara’ tem um caráter distintivo, nunca sendo usada para designar uma atitude humana, significa o ato ex nihillo[3] de Deus. O escritor prefere não estabelecer uma relação direta entre a criação do ser humano e o restante da criação. Para tanto ele usa a palavra ’asah, indicando uma mudança “metodológica” de Deus. Não é o verbo que cria o ser humano, mas o toque, o modelar de Elohîms.

Quando contempla a sua escultura, diferente de Miquelângelo que golpeia com o cinzel o joelho do seu Moisés, Elohîms sopra nas narinas de barro do terroso o fôlego essencial da vida, o ruach divino. Não um ar qualquer, não um vento mágico, mas o vento da alma de Deus. A essência de vida , do próprio Deus, começa naquele ato, a fazer parte da essência constitutiva do ser humano. Como isso acontece? Como o Ser humano passa a receber em si tal essência? Com certeza não de forma passiva. É difícil imaginar que o ser humano simplesmente receba o hálito divino e permaneça durante todo processo de forma inerte, sem reação alguma. Antes, entendo que o Adâm sentiu o ar entrando em seu corpo, sentiu seus membros tomarem vida e no momento da união entre a criatura e seu criador o ser humano recebe seu primeiro código religioso: o que ensina que se conhece a Deus através da percepção. Pois é através da percepção que o ser humano tem sua primeira relação com o sagrado, sua primeira experiência religiosa.

[1] CHOURAQUI, André. No Princípio (Gênesis). Rio de Janeiro: Imago, 1995. p. 44.

[2] Nesse texto “comunicar” significa transmitir a outro um atributo que lhe é próprio. O artista cria porque Deus inicialmente criou. Esse é um aspecto relevante da teologia da revelação geral.

[3] Ex nihillo nihil fit (do nada, nada precede), a expressão ex nihillo é usada para designar a doutrina que afirma que Deus criou todas as coisas a partir do nada, sem a necessidade de material pré- existente. Essa expressão não se encontra na Bíblia protestante, sendo oriunda do livro apócrifo de 2 Macabeus 7.28.

Um comentário:

Mary Rute G. disse...

Marcelo,

Seu texto está muito bonito, poético e profundo. Vc traz idéias que, instantaneamente, nos levam a fazer conexões com outras questões, ampliando ainda mais a mensagem que vc deixou ali de presente pra nós. Concordo contigo que a questão do sagrado se constitui nessa dimensão da percepção sensível, "subcortical" (S. Rolnyk). Nessa dimensão, o sentido não está condicionado ao mundo das representações (das formas), mas depende da nossa capacidade de percepção das forças, das sensações corporais que se estabelecem nos encontros com o outro. Abrir-se sensivelmente aos encontros com o outro é, dessa perspectiva, uma experiência religiosa e consequentemente criadora (porque transforma os entes envolvidos no encontro). Parabéns e obrigada pelo texto!