A busca do barro - uma questão de imagem

É da interação de sentidos entre o barro e as mãos do oleiro que nasce a imagem de Deus no ser humano. Ed Renné Kivitz, ao falar sobre a Imago Dei, o fruto do hálito de Deus no homem, nos explica que “a imagem de Deus no homem possui pelo menos quatro dimensões fundamentais: espiritual, pessoal, relacional e criativa. Espiritual, porque Deus é espírito. Pessoal, porque Deus é pessoa. Relacional, porque Deus é plural. Criativa, porque Deus delegou autoridade para que o homem exerça domínio sobre o restante da criação.”[1].

Agora enfiamos o nosso pé na Areia movediça dos debates teológicos. No que consiste a imagem de Deus no ser humano? Muito se tem proposto a fim de responder essa pergunta. Houve, historicamente, uma tentativa de reduzir a Imagem de Deus no ser humano à semelhança moral e racional. Esta era a visão defendida pela maior parte dos pais da Igreja. Alguns faziam distinção entre imagem e semelhança, dizendo ser a primeira as características corporais e a segunda as características espirituais. Outros defendiam que a Imagem consistia nas faculdades intelectuais da razão e da liberdade, e a semelhança consistia na justiça original. Na reforma, Lutero e Calvino seguiram posições diferentes quanto à interpretação dessa doutrina. Lutero via a imagem de Deus no ser humano como sinônimo de sua justiça original, e portanto, totalmente perdida por conta do pecado. Calvino, por sua vez, afirmava que “com essa expressão (imagem de Deus) indica-se a integridade de que Adão foi dotado quando o seu intelecto era límpido, as sua emoções estavam subordinadas à razão, todos os seus sentidos eram regulados devidamente, e quando ele verdadeiramente atribuía toda a sua excelência aos admiráveis dons de seu criador. Embora a imagem divina estivesse primeiro na mente e no coração, ou na alma e suas facilidades, não havia parte nenhuma, mesmo no corpo, em que não fulgissem alguns raios de glória”[2]. Schleiermacher entendia a imagem e semelhança como uma receptividade para com o Divino, uma capacidade de responder ao ideal divino e de crescer rumo à semelhança de Deus.[3]


Cada corrente teológica seguiu um caminho de pensamento marcado pelos contornos e determinações culturais do seu tempo. Poucos se perguntaram sobre a real intenção do poema que narra a criação do ser humano. É pouco provável que o autor tivesse como intenção principal no texto falar sobre a razão do pensamento grego, ou então, da justiça original da reforma. O pensamento “desvelador” do nosso método teológico, que não consegue conviver em paz com a paradoxalidade da personalidade de Deus, busca de uma forma ou de outra aplicar seus conceitos aprisionadores a fim de defender um ou outro corpo doutrinário . O autor bíblico estava livre desses pré-supostos teológicos de forma que ele simplesmente nos comunica através do paralelismo[4] que fomos feitos cópia de Deus. No texto as palavras tselem e demouth são usadas dentro de um paralelismo gradual, para, literalmente, dizer que o homem foi feito uma réplica de Elohîms, segundo sua natureza divina. De forma que “aquilo que é arquetípico de Deus torna-se e ectípico no homem[5]”. Todos os demais animais foram feitos segundo as suas espécies , o homem, no entanto, foi criado segundo a semelhança de Deus . Entender a simples idéia de que somos réplica, não um “Frankenstein” de conceitos teológicos e culturais, remendados ao prazer das idéias humanas, é de fundamental importância para compreendermos como Deus coloca em nosso “DNA espiritual” o paradigma relacional da criação. Deus, ao escolher o método de criação do Ser humano, diferenciado de todo o restante da criação, escolhe também a forma que mais lhe agrada de relacionamento. Deus escolhe a via da pessoalidade. Quando falamos de pessoalidade não podemos cair no erro de confundir o conceito vétero-testamentário de pessoa com os postulados gregos sobre o assunto. Estamos falando de uma pessoalidade integral, de um Deus que se relaciona com o ser humano no campo da razão, dos sentidos, das emoções. O Deus da Criação não é o Deus que só fala, Ele também é o Deus que toca o ser humano, gera sensações, cria poema, sopra, conversa, enfim, um Deus plenamente empático. Deus não se conforma em apenas criar, ele cria a sua réplica como alguém capaz de responder aos estímulos deste relacionamento, capaz de entender e absorver a revelação constante de Deus. O Deus da criação nos conduz a repensar nossos conceitos de espiritualidade devocional. Será que Deus está mesmo tão limitado às práticas protestantes de espiritualidade? Será que a arte não consegue, por si só, nos conduzir a experiências espirituais reveladoras? É Possível haver uma espiritualidade integral excluindo a corporeidade, a apreciação da imagem e a contemplação poética da nossa prática litúrgica? Essas perguntas nos fazem refletir sobre a relevância da imagem de Deus em nós e nos propõem uma meditação sobre como trazer para dentro do nosso universo litúrgico um pouco mais das mãos do oleiro.


[1] KIVITZ, Ed Renné. Vivendo Com Propósitos. São Paulo: Mundo Cristão. 2003, p. 66.
[2] João CALVINO. Institutas da Religião Cristã, 1.15.3.
[3] Louis BERKHOF - Teologia Sistemática, p. 187.
[4] Paralelismo é um recurso muito comum na poesia hebraica. Nele encontramos uma espécie de rima de idéias, onde o pensamento se repete no texto a fim de enfatizar um certo conceito.
[5] Louis BERKHOF - Teologia Sistemática, p. 188

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