Prece

Ó Deus! Quem és tu?
Que nomes moram no teu mistério sem fim?
Ninguém jamais te viu.
Passas como o Vento, e só ficam as marcas da tua passagem, gravadas na memória: o sentimento de beleza, o sentimento de tristeza, o corpo que espera, sem certeza, como um poema na carne.

Tua face, nunca vi. Só conheço as muitas faces da minha saudade.

E se te chamo pelo nome de Pai e pelo nome de Mãe, é porque estes são os nomes da minha nostalgia, no bater binário do desejo...

As estórias são verdadeiras: nenhuma mãe é grande que chegue para satisfazer a nossa nostalgia. Porque esta mãe com que sonhamos teria que ser bela e terna como a Pietá, e o seu colo teria de ser do tamanho do universo inteiro.

Nele se deita o próprio filho de Deus. Ó Deus, a nossa nostalgia só será satisfeita se esta mãe viver em ti. Assim, quando do fundo da tristeza gritarmos, "Ó mãe, estou perdido", ouviremos a resposta maternal: "Meu filho, estou aqui..."

Rubem Alves

A Bíblia de Michelangelo - Parte I


O teto da Cappella Sistina - Michelangelo


Durante minha peregrinação encontrei uma capela que nunca entrei, da qual sou tão intimo que tenho de lembrar-me constantemente do fato de jamais ter entrado por suas portas. A capela Sistina foi, para mim, um encontro com a liturgia das imagens, com a paradoxalidade de ver, diante da grandeza da obra, minha realidade mortal, minha condição de finitude, ao passo que, diante das imagens que representam séculos se descortinando diante dos meus olhos, consigo imaginar o que é ser eterno. É interessante o convite de perceber-se hora como ser onisciente, hora como mortal impotente na história, me aproximando de Deus tanto quanto da minha humanidade. Desejo que entrem comigo, que vejam, que encham a retina e o espírito com a genialidade da teologia imagética de Michelangelo.


A Capela Sistina foi concebida inicialmente para ser a "Capela Papalis" ou "Capela Pontifícia", tinha seu teto decorado em azul, com estrelas de ouro, obra do pintor Matteo d'Amelio. Quando o Papa Giulio II delegou a Michelangelo a tarefa de decorar a abóbada da Capela logo surgiu o obstáculo de organizar as histórias sobre a superfície de cerca de 550 metros quadrados a 20 metros de altura. Uma carta deixada pelo artista mostra-nos que inicialmente seu projeto consistia em pintar cenas dos doze apóstolos e uma decoração geométrica. No entanto, Michelangelo não se deteve muito tempo ao pedido do Papa , após alguns esboços demonstrando a sua perplexidade ante o pedido, obteve a carta branca do Papa para elaborar seu projeto iconográfico. Assim, nasce no teto da capela um grande livro ilustrado, com 9 cenas retiradas do livro de gênesis, 12 quadros laterais retratando os profetas bíblicos e as sibilas mitológicas, 4 pendentes com flashes da história de Israel, 8 velas e 12 lunetas com os antepassados de Cristo.

Michelangelo não demonstrou estar comprometido com a visão medieval, onde o coletivo determina o modo como o indivíduo deve vivenciar sua espiritualidade, mas sim com uma nova concepção de mundo, mais individualista, mas que, ao mesmo tempo, volta-se para fora olhando o que é secular e reinterpretando o que fora, até então, pregado como ideal religioso. Não são as ruas de ouro da nova Jerusalém que agradam o homem renascentista, mas as ruas dos filósofos, a acrópole, as ruas sábias de Atenas. Dentro desta visão antropocêntrica o artista, que antes era o pintor da publicidade religiosa da Igreja Romana, agora impõe seu olhar sobre os temas bíblicos. Dessa forma, não temos na Capela Sistina uma simples representação de temas religiosos, mas sim uma potente representação imagética da concepção teológica de Michelangelo. Nela podemos perceber sua visão a respeito do tema tratado, o Antigo Testamento, onde Michelangelo propõe em sua obra a concordância entre o mundo “sub lege” e o mundo “sub gratia”, o mundo judaico-cristão e a mitologia dos gregos, o olhar renascentista e o tema universal da busca da espiritualidade.


LINHAS DE LEITURA

É impossível ter apenas um olhar sobre essa obra. Assim como numa escultura se pode ter diversos olhares, de acordo com a posição do apreciador ao redor da obra, Michelangelo nos oferece diversas vias de apreciação, diversos olhares sobre a mesma obra, de forma que podemos num instante seguir a via dos profetas e das sibilas, noutro andar pelos episódios do livro de Gênesis, ou ainda ler a obra pela via dos por menores. Encontramos, nessa obra, a ruptura com a visão quatrocentista de composição, desfazendo as relações espaço-composição e narração-cronologia com a finalidade de abrir novas possibilidades de leitura e romper com os ditames renascentistas, o que faz com que Michelangelo caminhe rumo ao maneirismo e o posterior barroco, oferecendo ao apreciador figuras que transitam entre o sagrado e o profano dentro de um universo de imagens que se sobrepõem às estruturas arquitetônicas da capela.


Nas áreas centrais os seguintes episódios de Gênesis:

· A separação entre Luz e Trevas;
· A criação do Sol e da Lua;
· A separação entre terra e águas;
· A criação de Adão;
· A criação de Eva;
· O pecado original e a expulsão do Paraíso;
· O sacrifício de Noé;
· O dilúvio universal;
· A embriaguez de Noé.


Nas áreas laterais alocou as figuras de sete profetas e cinco sibila. Onde os primeiros foram representados de forma a evidenciar um crescente da revelação profética, de forma que, quanto mais nossa visão se aproxima do altar, mais percebemos o envolvimento do profeta com a revelação dada a ele. Os profetas representados aqui são:

· Daniel
· Ezequiel
· Isaias
· Jeremias
· Joel
· Jonas
· Zacarias

As segundas são personagens da mitologia grega que, sob a inspiração de Apolo, possuem poder profético. O interessante é notar a relação criada pelo artista entre elas e os profetas do Antigo Testamento, intercalando o sagrado dos profetas e o profano das sibilas e construindo um caminho de leitura muito próprio e cheio de riqueza. As sibila representadas são:

· Ciméria, ou Cumana;
· Prisca, a sibila Eritréia
· Dafne, a sibila Délfica
· A sibila Líbia
· Sambeta, sibila Pérsica


No canto encontramos pendentes com representações de várias cenas da história do povo de Israel segundo foram narradas nos vários livros do Antigo Testamento, tais como: David e Golias; a punição de Amã, a Serpente de Bronze e Judite e Holofernes.

No próximo post sobre a Bíblia de Michelangelo apreciaremos a obra pela via das imagens centrais, que narram cenas do livro de Gênesis.

Modos de ver

"A vista chega antes das palavras. A criança olha e vê antes de falar. (...) A vista é aquilo que estabelece o nosso lugar no mundo que nos rodeia; explicamos o mundo com palavras, mas as palavras nunca podem anular o facto de estarmos rodeados por ele. Ainda se não estabeleceu a relação entre o que vemos e o que sabemos."

"Uma imagem é uma vista que foi recriada ou reproduzida. É uma aparência, ou um conjunto de aparências, que foi isolada do local e do tempo em que primeiro se deu o seu aparecimento, e conservada - por alguns momentos ou por uns séculos. Todas as imagens corporizam um modo de ver. Mesmo uma fotografia."

John Berger no livro Modos de Ver

O Deus bailarino

Edgar Degas - Danseuse debout (Bailarina)

O que acreditamos a respeito de uma coisa determina a maneira como nos relacionamos com ela. Eu, por exemplo, gosto de brincar com cachorros, mas se percebo que um cachorro é bravo, fico longe dele; mas se é brincalhão, chego perto. Assim é também com o mundo. Antigamente, acreditava-se que o mundo era uma estrutura hierarquizada, sempre do mais complexo ou poderoso para o mais simples ou fraco, sendo que Deus ocupava o topo da pirâmide. O imaginário das pessoas era construído a partir das relações entre reis e súditos, senhores e escravos, generais e soldados, e assim por diante. Cada um tinha seu papel e quase todo mundo se respeitava. Naquela época, a Igreja tinha autoridade, e quem não concordava com o que ela dizia morria na fogueira - mesmo que essa Igreja dissesse que índios e escravos não tinham alma e que o sol girava ao redor da Terra.

Quem acredita numa realidade estruturada a partir de autoridade e poder acha que a fé em Deus resolve tudo; afinal de contas, “agindo Deus, quem impedirá?”. Basta orar com fé e esperar a cura, a prosperidade, a volta do marido, a libertação do filho, enfim, a solução de qualquer problema. Deus manda, o resto obedece. Tudo quanto se tem a fazer é aprender os truques para fazer Deus mandar exatamente o que a gente quer que ele mande. Surgem então as correntes de fé e as ofertas compensadoras da falta de fé, e, principalmente, os gurus que sabem manipular Deus em favor de quem paga bem. Feitiçaria pura.

Copérnico, Galileu, Newton, Einstein e sua teorias científicas fizeram com que o mundo passasse a ser visto como uma máquina, ou como um relógio, sendo Deus o relojoeiro. Neste mundo-máquina, tudo pode ser decodificado, explicado e controlado. As coisas funcionam em relações de causa e efeito previsíveis, como por exemplo as estações do ano, as fases da lua, os movimentos das marés, a órbita dos planetas e os eclipses solares. No dia-a-dia, estas relações também são previsíveis: a partir de informações sobre massa, força, aceleração e direção, sabemos calcular em quanto tempo o carro vai se chocar contra o poste, ou qual bolinha vai acertar a amarela e qual delas vai cair na caçapa.

No mundo-máquina é possível também consertar quase tudo. Quando seu microondas pára de funcionar, basta chamar um técnico e ele vai dizer qual peça deverá ser substituída. O problema é que quem acredita que o mundo funciona assim acaba extrapolando isso para todas as suas relações: o casamento quebrou? Seu filho está dando trabalho? A vida não está funcionando? Então, basta chamar o especialista. Quase tudo tem conserto e pode voltar a funcionar como antes. Mais do que isso, se é verdade que as relações de causa e efeito obedecem precisão matemática, basta apertar o botão certo que as coisas acontecem. Quer fazer discípulos? Quer fazer a igreja crescer? Quer evitar problemas na família? Quer garantir uma boa carreira profissional? Então, basta fazer o curso certo, encontrar o método indicado, seguir as regras apropriadas. Logo, “A” sempre conduz a “B”. Caso você faça “A” e o resultado não seja “B”, então você pensa que fez “A”, mas não fez. O mundo-máquina é assim: tudo sempre funciona direitinho – você é que nem sempre funciona.

Desta compreensão é que surgem o fenomenal ministério para fazer a igreja funcionar com propósitos; a estratégia de sete passos para fazer o ministério ser relevante; as quatro leis espirituais para ganhar a vida eterna; as técnicas de ministração para libertação espiritual e cura interior; os grupos de 12 para fazer o rebanho se multiplicar. É apostila para tudo quanto é coisa, curso para tudo quanto é treco e guru especialista para tudo quanto é tranqueira. Quase todos bem intencionados, mas geralmente funcionando como se o mundo fosse mesmo uma máquina.

Mais recentemente apareceram no cenário algumas teorias elaboradas a partir de outras percepções das ciências da física e da biologia. Na mecânica quântica, os movimentos não são tão previsíveis quanto na mecânica newtoniana. Então, o mundo já não é uma hierarquia nem uma máquina, mas um organismo vivo. As palavras mais adequadas para descrever a realidade são “teia”, “rede”, “arena”, e até mesmo “dança”. A realidade é complexa e os fenômenos naturais e sociais não são previsíveis nem manipuláveis. As pessoas são singulares. Basta verificar que dez pessoas que ganham na loteria reagem de dez maneiras diferentes. Os relacionamentos também são singulares. Dez casais que ganham um filho reagem de dez maneiras diferentes. Da mesma forma, dez igrejas que iniciam um projeto reagem de dez maneiras diferentes. Seres vivos não são padronizáveis. Eles não obedecem relações exatas de causa e efeito. Seres vivos não são coisas. E a vida não é exata.

Quem acredita no mundo como um ser vivo onde cada ser e cada relação é singular, não consegue se submeter a esquemas, não tem a pretensão de gerenciar pessoas, não confia em métodos e nem se impressiona com números, estatísticas e probabilidades. Prefere outros caminhos. Escolhe o caminho da intimidade com o outro; encanta-se com o mistério do sagrado; maravilha-se com a diversidade; presta atenção no jovem em conflito; ouve os dramas do homem que não pára em emprego; fica em silêncio diante da dor e se ajoelha para orar antes de dar um passo sequer em qualquer direção. Esses não se dão muito bem com o Deus-general, ou o Deus-relojoeiro. Curtem mais o Deus-bailarino.


Ed René Kivitz