A Bíblia de Michelangelo - Via Teológica





Poucas metáforas servem tão bem para explicar a apreciação da arte quanto a metáfora da via. Diante da obra nosso olhar escolhe vias para lê-la. Na introdução à obra "o teto da Capela Sistina" vimos a construção, por parte do artista, de diversas vias de leitura. São rotas para o olho, compostas por um artista que não entendia a pintura como uma prisão bidimencional, mas sim como um desafio: compor uma obra que, sendo pintura, despertasse no espectador a mesma sensação da escultura, a saber, a possibilidade de mudar a rota. Andando ao redor de uma escultura mudamos constantemente nosso ponto de análise, nossas conclusões sobre a obra, nossa experiência, abrindo ou fechando nosso olhar sobre o que vemos. Da mesma forma, quando o apreciador se movimenta pela capela percebe que a obra vai se mostrando diferente, como uma escultura, revelando as vias que estavam escondidas. As luzes interagem na obra como se os volumes rompessem a argamassa. Essa é a beleza da escultura e podemos desfrutar dela na pintura de Michelangelo.

A função da teopoética, se é que podemos definir assim, é ser para a teologia uma possibilitadora de vias. Trazer para a teologia a riqueza das possibilidades é retomar na teologia a sua característica primeira: estar livre para a beleza e para a apreciação da revelação.

Idéias x Convicções

“Não tentes tirar uma idéia da cabeça de outrem porque, examinando bem, verás que em geral não se trata de idéias, mas de convicções. São inextirpáveis. E a causa única de todas as guerras - políticas ou religiosas, paroquianas ou internacionais”.

Mário Quintana

Hipótese

E se Deus é canhoto
e criou com a mão esquerda?
Isso explica, talvez, as coisas deste mundo.

Carlos Drummond de Andrade

A Bíblia de Michelangelo - Parte II


"Só acredito num deus que saiba dançar!"

Friedrich Nietzsch


Ao entrarmos na capela a primeira imagem que se apresenta é o quadro da "criação da Luz". Nessa apreciação é fácil sentir como se uma janela se abrisse para o infinito, onde o tempo perde o poder de senhor, e converte-se em anfitrião que abre suas mãos e revela o que antes nossos olhos não podiam conhecer. O que vemos nessa janela é um Deus dançarino, em sua túnica rosa, cortando o céu em espiral nesse belo escorço [1] de Michelangelo. Sua dança separa luz da escuridão, sem qualificar, sem desprezo por uma ou admiração por outra, Ele apenas as organiza como um cenário atrás de si. Ele segue seus movimentos e cada gesto é irrepetível, cada movimento único, sem ensaio, em um improviso de genialidade extrema.


Embora apaixonado pela cultura grega, Michelangelo pinta um Deus incompatível com o conceito grego de apatia divina, onde Deus não pode ser tomado por algo que lhe seja externo. Aqui, Deus parece tomado pela música da criação e se lança no infinito de uma dança que diz que o próximo passo já esta nascendo.

[1] Representação em desenho ou pintura, de qualquer objeto ou figura humana, a partir da aplicação das leis da perspectiva. O objetivo dessa técnica é produzir a impressão de tridimensionalidade na figura representada. O termo deriva do verbo italiano scorciare que significa "tornar mais curto", "encurtar". Retirado do site http://www.itaucultural.org.br