Entranhas do Ser

Paul Cézanne, Natureza-morta com maçãs e laranjas, 1895-1900, óleo
sobre tela, 74 x 93 cm. Musée d’Orsay,

"O que tento traduzir-vos é mais misterioso, entranha-se nas próprias raízes do ser, na fonte impalpá­vel das sensações. Mas é esta sensação mesma, eu creio, que constitui o temperamento. Não é senão a força do temperamento que conduz ao objetivo que se deve atingir. Eu dizia a pouco que o cérebro, livre, do artista, deve ser como uma placa sensível, um aparelho registrador simplesmente, no momento em que ele trabalha. Mas esta placa sensível o conduz ao ponto de receptividade onde ele pode impregnar-se da imagem consciente das coisas. Um longo trabalho, a meditação, o estudo, os sofrimentos as alegrias, são preparados pela vida mesma. Uma meditação constante dos procedimentos dos mestres. E além disso o ambiente onde nos movemos habitualmente... o sol, escute-o um pouco... o acaso dos raios, o ritmo, a penetração do sol no mundo, quem pintaria isto, quem poderia narrar? Isto seria a história física a psicologia da terra. "

Paul Cézanne. Por J.Gasquet in: Conversations avec Cézanne. p.111

Capela dos Olhos Fechados - I


Existem lugares escondidos no meio do nada. Não entrarão nos livros de história. Muitos, nem ao menos constam em mapas. Mas influenciam definitivamente a história da humanidade. Esse é o caso de uma pequena capela que encontrei há alguns anos, enquanto fazia minha peregrinação espiritual. Um pequeno, mas muito significativo templo. Uma igrejinha chamada “Capela dos Olhos Fechados”. Esse nome foi dado em homenagem a um pedreiro e escultor que trabalhou na sua construção e dizia que mistério traz consigo a ideia de “fechar os olhos” ou “fechar a boca”. Fechar os olhos, porque o que é mistério vai além do que nossos olhos entendem, e fechar a boca porque é impossível expressá-lo com nossa linguagem comum. Foi essa definição de mistério que serviu como base para os alicerces da noção de espiritualidade expressa nesse templo. Quem ali congrega convive com o mistério da revelação. Nela, não há um deus que mora numa caixa de sapato. Não há condicionamentos para o incondicional. Há liberdade para o que é liberto em essência.
Essa igreja foi construída com pedras deixadas por peregrinos no caminho. Eles sabiam que o valor do caminho não está na chegada, mas no caminhar. Por isso, largavam perto do monte chamado utopia pedras com escritos contendo experiência de revelação. Foi com essas pedras, cheias de história, que essa capela foi construída.

Uma atitude como essa, quando repedida tantas vezes, não demoraria muito para gerar uma tradição. Tradição que, por influência das muitas vivências no caminho, logo se tornou em uma enorme manifestação de criatividade religiosa.

Alguns buscando resgatar a tradição de escrever em pedras rabiscavam poemas, dissertações, e outras obras literárias nas pedras que compunham as paredes do templo. Outros traziam embaixo do braço seus quadros e penduravam onde achavam melhor. Ainda outros, não satisfeitos em apenas expor o que pintavam, preferiam pintar ali mesmo, sob os olhares dos demais peregrinos suas “obras de revelação”. Foi assim que, através dos séculos, esta capela foi e está sendo construída.

Nos próximos textos entraremos pelas portas desse templo e contemplaremos o resultado do encontro do poder criativo da imagem de Deus em nós com a explosão transformadora da revelação Divina.

Aos Caminhantes

Desde o século IX milhares de pessoas cruzam a Espanha inteira, de leste à oeste, a pé. Isso para muitos parece uma loucura. Mas, para os que percorrem o Caminho de Santiago de Compostela, este é um caminho de espiritualidade e auto-conhecimento. Considerada uma das principais rotas de peregrinação do mundo, o caminho é repleto de lugares sagrados. Todo peregrino recebe instruções e ajuda por todo o caminho. Enfim, tudo o que lhe é necessário para ter uma experiência espiritual lhe é fornecido.

Muitos são os relatos de peregrinos que começaram sua jornada carregando uma mochila cheia de produtos “indispensáveis” à vida. A cada quilômetro a mochila passa a pesar mais, e o que era indispensável passa a ser dispensável, de forma que ao término da caminhada o peregrino tem consigo apenas um bastão para lhe servir de apoio, um cantil com água e uma muda de roupa. Aí está a magia do Caminho. Ele revela ao peregrino aquilo que realmente lhe é importante.

Num mundo tão cheio de elementos fundamentais à vida, nós, que originalmente fomos chamados de o “povo do caminho”, devemos participar de uma peregrinação que, abandonando a futilidade das coisas “fundamentais”, encontre um padrão de espiritualidade que sacie a fome do nosso ser religioso.

Gostaria de convidá-lo a percorrer a ancestral rota da espiritualidade bíblica. Buscar rever o que é fundamental na experiência religiosa. Olhar para nossa mochila e jogar fora o peso desnecessário, nutrirmos nosso ser com o que realmente nos dará forças para andar.

A metáfora da caminhada será nossa guia nesse blog. Teremos um caminho, faremos paradas, conheceremos lugares e pessoas, enfim, tudo o que faz parte de uma peregrinação.

Te espero no caminho.