Que voz vem no som das ondas,
Que não é a voz do mar?
É a voz de alguém que nos fala,
Mas que, se escutarmos, cala,
Por ter havido escutar.
E só se, meio dormindo,
Sem saber de ouvir ouvimos,
Que ela nos diz a esperança
A que, como uma criança
Dormente, a dormir sorrimos.
São ilhas afortunadas,
São terras sem ter lugar,
Onde o rei mora esperando.
Mas, se vamos despertando,
Cala a voz, e há só mar.
PESSOA, Fernando. Mensagem. São Paulo: Martin Claret, 2003, p. 54.
Senhor Das Manhãs de Maio
Meu galpão de alma tranqüila ressuscita todo dia
Cada vez que o sol destapa sua silhueta sombria
E desenha cinamomos na minha querência vazia
Cada vez que o sol destapa sua silhueta sombria
E desenha cinamomos na minha querência vazia
Senhor das manhãs de maio ceva este mate pra mim
Que eu venho a tempos de lua minguando os sonhos assim
Os que eu posso sonho aos poucos os que eu não posso dou fim
Que eu venho a tempos de lua minguando os sonhos assim
Os que eu posso sonho aos poucos os que eu não posso dou fim
Silencio quando posso, quando quero sou estrada
Diviso as coisas do tempo bem antes da madrugada
Numa prece que bem lembro refaço minhas orações
Pai nosso que estais no céu precisai vir aos galpões
No descaso dos galpões solito quando me vejo
É que se achega a saudade com seus olhos de desejo
Pondo estrelas madrugueiras neste céu de picumã
Parecendo que se adentra pra contemplar minha manhã
É que se achega a saudade com seus olhos de desejo
Pondo estrelas madrugueiras neste céu de picumã
Parecendo que se adentra pra contemplar minha manhã
Meus sonhos tomei pra vida pra minha rédea ao meu gosto
Pras dores da minha alma se ela cruzar este agosto
Por favor senhor dos mates não deixe a manhã tão triste
Mateia junto comigo que eu sei que tu ainda existe
Luiz Marenco
Pras dores da minha alma se ela cruzar este agosto
Por favor senhor dos mates não deixe a manhã tão triste
Mateia junto comigo que eu sei que tu ainda existe
Luiz Marenco
Para ele o galpão, longe de ser apenas um local comum, é um local litúrgico e o mate seu símbolo eucarístico. Sua oração é um manifesto, um grito pedindo a presença reveladora de Deus. É como se o poeta cobrasse de Deus seu quinhão dentro da kenosis, dizendo: chegou a hora da nossa cultura.
O padrão de espiritualidade desse cântico por ser impregnado de autonomia não permite a imposição do dogma cultural. Se o Pai é nosso, visita o galpão, bebe o mate conosco, conhece nossa marca e nosso jeito. Para ele, negar o Deus que desce ao galpão é negar a existência de Deus, afinal Deus sem kenosis não é Deus.
Palavras de um pedreiro
“É este que é o estado de nossa existência inteira, desde seu início ao fim. Tal separação é preparada no útero da mãe, e antes disso, em cada geração precedente. É manifesto nas ações especiais de nossa vida consciente. Alcança além de nossas sepulturas em todas as gerações sucessivas. É nossa própria existência. A existência é separação!”
Paull Tillich, The Shaking of the Foundations, capítulo 19
Tradução: Rodrigo Borges de Azevedo
Ler Capítulo completo aqui
Paull Tillich, The Shaking of the Foundations, capítulo 19
Tradução: Rodrigo Borges de Azevedo
Ler Capítulo completo aqui
Resistência e Submissão
Dietrich Bonhoeffer
Quem sou eu? Seguidamente me dizem
que saio de minha cela
Tão sereno, alegre e firme
Qual dono que sai do seu castelo.
Quem sou eu? Seguidamente me dizem
que da maneira como falo aos guardas,
Tão livre, amigável e com clareza
como se fosse eu a mandar
Quem sou eu? Também me dizem
que suporto os dias do infortúnio
Impassível, sorridente e altivo
Como alguém acostumado a vencer.
Sou mesmo o que os outros dizem a meu respeito?
Ou apenas sou o que eu sei de mim mesmo?
Inquieto, saudoso, doente,
como um pássaro na gaiola,
respirando com dificuldade, como se me apertassem a garganta,
faminto de cores, de flores, do canto dos pássaros,
sedento de palavras boas, de proximidade humana,
tremendo de ira por causa da arbitrariedade e ofensa mesquinha,
irrequieto à espera de grandes coisas,
em angústia impotente pela sorte de amigos distantes,
cansado e vazio até para orar, para pensar, para criar,
desanimado e pronto para me despedir de tudo?
Quem sou eu? Este ou aquele?
Sou hoje este e amanhã um outro?
Sou ambos ao mesmo tempo? Diante das pessoas um hipócrita?
E diante de mim mesmo um covarde, queixoso e desprezível?
Ou aquilo que ainda há em mim será como um exército derrotado,
que foge desordenado à vista da vitória já obtida?
Quem sou eu? A própria pergunta nesta solidão parece pretender zombar de mim.
Quem quer que sempre eu seja, tu me conheces, ó meu Deus,
Sou teu.
Quem sou eu? Seguidamente me dizem
que saio de minha cela
Tão sereno, alegre e firme
Qual dono que sai do seu castelo.
Quem sou eu? Seguidamente me dizem
que da maneira como falo aos guardas,
Tão livre, amigável e com clareza
como se fosse eu a mandar
Quem sou eu? Também me dizem
que suporto os dias do infortúnio
Impassível, sorridente e altivo
Como alguém acostumado a vencer.
Sou mesmo o que os outros dizem a meu respeito?
Ou apenas sou o que eu sei de mim mesmo?
Inquieto, saudoso, doente,
como um pássaro na gaiola,
respirando com dificuldade, como se me apertassem a garganta,
faminto de cores, de flores, do canto dos pássaros,
sedento de palavras boas, de proximidade humana,
tremendo de ira por causa da arbitrariedade e ofensa mesquinha,
irrequieto à espera de grandes coisas,
em angústia impotente pela sorte de amigos distantes,
cansado e vazio até para orar, para pensar, para criar,
desanimado e pronto para me despedir de tudo?
Quem sou eu? Este ou aquele?
Sou hoje este e amanhã um outro?
Sou ambos ao mesmo tempo? Diante das pessoas um hipócrita?
E diante de mim mesmo um covarde, queixoso e desprezível?
Ou aquilo que ainda há em mim será como um exército derrotado,
que foge desordenado à vista da vitória já obtida?
Quem sou eu? A própria pergunta nesta solidão parece pretender zombar de mim.
Quem quer que sempre eu seja, tu me conheces, ó meu Deus,
Sou teu.
Capela dos Olhos Fechados - II
As portas se abrem com o ranger comum daquelas que carregam sobre si o peso do tempo. Pinturas, esculturas, poemas, gente e marcas deixadas por gente. Tudo pode falar dentro dessa capela. Tudo possui uma mensagem, um afeto que nos toca. Mas o que mais me chama a atenção são as paredes construídas de pedras escritas, que com o passar dos anos adquiriram o poder de falar, e como se estivéssemos em um recital, ouvimos as vozes das paredes que falam.Pretendo transcrever aqui alguns textos que encontrei na capela. Espero que gostem e que sintam, vocês também, o desejo de visitá-la e encher olhos, ouvidos, mente e coração com as possibilidades de uma outra experiência de espiritualidade.
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